Mário Peixoto começa a escrever e publicar já no mesmo período em que realiza Limite.

Em 1931, sai a coletânea de poemas Mundéu (reeditado em 1996 pela editora Sette Letras) com forte sotaque modernista.

Mário de Andrade escreve o prefácio e caracteriza a obra da seguinte maneira: “Os poemas, digamos legítimos, de Mário Peixoto se caracterizam especialmente pela rapidez. Tem-se a impressão de um jato violento, golfadas irreprimíveis. São poemas que nascem feitos, explosões duma unidade às vezes excelente, em que o movimento plástico das noções e das imagens é incomparável dentro da nossa poesia contemporânea”.

O próprio Mário logo se distancia desta poesia por achá-la demasiadamente construída e forcada. No mesmo ano de 1931, publica, na revista Bazar, três contos e uma peça de teatro, que fazem parte de uma coletânea editada por Saulo Pereira de Mello em 2004: Seis contos e duas peças curtas (editora aeroplane), incluindo ainda material inédito sem datação.


Outra coletânea de poemas escritos entre 1930 e 1960, Poemas de permeio com o mar, é publicada em 2002 pela editora aeroplane.


Constança Hertz, no seu artigo Mapas inexistentes, caminhos incertos: a obra poética de Mário Peixoto, escreve a respeito desta coletânea: “As imagens poéticas revelam sempre uma realidade oscilante, de águas e reflexos que podem se construir e se desfazer a qualquer instante. A realidade que faz parte dos poemas traz sempre a marca da instabilidade, como se a realidade possível tivesse sempre a consistência de sonhos, nuvens, mares – sempre instáveis, alimentam sonhos e podem se desfazer a qualquer instante [...]. Nos poemas de Mário Peixoto, o fluxo é permanente e segue-se a flutuar, por mares ou nuvens sonhados e buscados – e esta incerteza torna-se a única realidade possível”.

Em 1933 Mário publica, em edição particular na Tipografia São Benedicto, seu primeiro romance, O inútil de cada um com prefácio de Octávio de Farias que o define como “livro de difícil penetração, de compreensão demorada [...]. Livro admirável, uma vez assimilado” e um “romance a ler e a reler”.

A mesma versão do romance é editada em 1935 pela editora Alfredo Frederico Schmidt e em 1996, a editora Sette Letras relança uma edição do texto de 1933.

A partir de 1967, em Angra dos Reis e posteriormente no Sítio do Morcego na Ilha Grande, onde mora até 1975 quando se instala no hotel Angra Tourismo, Mário re-elabora o texto original de 1934/5, usando-o como matriz para uma versão extensa de seis volumes, dos quais apenas o primeiro O inútil de cada umItamar foi publicado em 1984 pela editora Record.


por intervenção de Jorge Amado, com o qual Mário tinha trabalhado anteriormente num de seus projetos fílmicos. Os outros cinco volumes estão sendo editados pelo Arquivo Mário Peixoto para uma futura publicação.

O romance, um universo literário próprio de aproximadamente 2000 páginas e de extraordinária qualidade textual, dialoga visivelmente com duas obras consagradas: A procura do tempo perdido (1913-27) de Marcel Proust e Orlando de Virginia Woolf (1928).

Peixoto envia sua figura central Orlando, com referências claramente autobiográficas e cuja homossexualidade é, neste primeiro volume, ainda de caráter mais latente do que determinante, numa viagem no tempo, onde, como diz num dos trechos prefácios do romance, “a mente mantém-se continuamente ativa; quer acordada ou dormindo. Pode, além do mais, tal a imagem refletida, reproduzindo-se infinitamente numa galeria de espelhos – pensar em si mesma, com a desdobrada capacidade de estar, a um só tempo, também pensando sobre ela própria e apreciar-se nesse preciso ato de estar pensando sobre ela mesma”.

O olhar para o passado é uma obsessão do autor, e suas lembranças – pode-se pensar no romance como uma autobiografia estetizada – emergem através de uma sucessão de analepses, dando um ritmo singular ao texto, que lembra o “embalo da maré”, uma imagem recorrente na obra de Mário Peixoto.
Assim, no próprio título do livro – O inútil de cada um – temos a chave de leitura que nos leva à memória flutuante e não instrumentalizada como única possibilidade de alcançar a essência de vivências passadas.

Para alcançá-las, é preciso afastar-se da ação e ir em direção ao sonho, deixando-se inútil: “De sonho em sonho – notava apenas que ali havia agora o silêncio – aquele benfazejo que me largava as rédeas na mão, para prosseguir, sem desvios, para onde me quisessem levar aqueles chamados do tempo retrocedido”.

Escrever contra o tempo, contra o relógio que diz “menos um, menos um”, contrabalançando o espaço temporal perdido com o tecido textual crescente, evocando a memória, sem violentá-la, em direção a uma compreensão contingente da mesma, aí está o paradoxo de seu romance que poderia ter sido ou quem sabe, ainda pode ser, uma das obras destacadas da literatura - não apenas - brasileira.

 

Referências bibliográficas

Hertz, Constança. Mapas inexistentes, caminhos incertos: a obra poética de Mário Peixoto. http://www.secrel.com.br/jpoesia/ag17hertz.htm.

Peixoto, Mario. O inútil de cada um. Rio de Janeiro : Record, 1984.

Peixoto, Mário. O inútil de cada um. Rio de Janeiro : Sette Letras, 1996. (reedição da versão de 1931, 153 pages.)

Peixoto, Mário. Mundéu. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996.

Peixoto, Mário. Poemas de permeio com o mar. Aeroplano, 2002.

Peixoto, Mário. seis contos e duas peças curtas. Rio de Janeiro: aeroplano, 2004.