O filme de Mário Peixoto deixou
sua marca não apenas na história cinematográfica e cultural do Brasil. Houve a polêmica já um pouco distante de Glauber Rocha em
torno do cinema novo, na década de 1960, quando ele contrapôs
Ganga Bruta (1933) de Humberto Mauro ao filme de Peixoto (ver
posteriormente neste texto). Mais recentemente, encontramos uma
seqüência com o próprio Peixoto em O Cinema Falado (1986),
único filme de Caetano Veloso. Adriana Calcanhoto projetou cenas do
filme durante a música O Mocho e a Gatinha, em seu DVD
Adriana Partimpim (2004). David Bowie escolheu Limite
como o único filme brasileiro entre seus dez favoritos da
América Latina para a mostra HIGH LINE FESTIVAL, em 2007.
Neste mesmo ano, a versão restaurada de Limite foi exibida no
festival de Cannes e fez parte dos filmes selecionados para a
World Cinema Foundation, fundada por Martin Scorsese e que tem
como objetivo a preservação, restauração e exibição de produções
históricas, sobretudo da África, América Latina, Ásia e Europa
central.
Aqui
um dossiê sobre Limite elaborado pela ZZ Productions,
Paris,
http://www.zzproductions.fr para
este evento. Para um artigo em inglês sobre Limite dentro do
contexto do cinema brasileiro, ver
este link.
A
seguir, um breve olhar histórico sobre o filme único de Mário
Peixoto.
1.
Quando se fala de filmes mais experimentais no Brasil ou de tais
filmes realizados por diretores brasileiros, pode-se basicamente citar
três produções: primeiro, Rien Que Les Heures (1926), filmado em Paris
por Alberto Cavalcanti (1897-1982); segundo, São
Paulo – Sinfonia da Metrópole (1929),
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| Cartaz 1929 |
dirigido por Rodolfo Lustig e Alberto Kemeny, um
filme obviamente inspirado pela Sinfonia de Berlim de Ruttmann (1927).
E, finalmente, podemos citar Limite, filmado em 1930 e exibido pela
primeira vez em 1931, dirigido e escrito por Mário Peixoto, que se
tornou, ao longo dos anos, um filme cult lendário. Foi votado várias
vezes como o melhor filme brasileiro já realizado e pode ser
considerado a primeira e única referência para filmes brasileiros
experimentais (apesar da problemática do termo) do cinema mudo. Do meu
ponto de vista, o termo Limite já traz em si uma certa qualidade
programática. Em primeiro lugar, gostaria de apontar a qualidade
icônica do "I" como uma concepção estrutural que caracteriza as linhas
visuais permanentes durante o filme, como nos fios, arames, estradas,
árvores secas, galhos e plantas, estacas e postes, telhados, paredes,
grades ou cercas.
E não é por acaso que depois da seqüência inicial do
filme – explorando um estado mais fluido e amorfo – a câmera focaliza
a prancha do barco como linha inicial que nos levará à primeira linha
de memória.
Essas linhas visuais, às vezes desdobrando-se em direção a
espaços abertos, às vezes formando espaços limitados como triângulos
ou cruzes, portanto, servem como uma ligação, um fio que conecta
diferentes flashes do passado, bem como indica suas limitações,
proporcionando ao filme uma estrutura muito geométrica,
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| Limite |
contrabalançada por detalhes em movimento e
obviamente, o movimento da própria câmera.
Em segundo lugar, Limite pode ser visto no limite histórico entre o
cinema mudo e falado, um filme com uma certa ambição de resumir muitas
das possibilidades estéticas e técnicas desenvolvidas nos anos 10 e
20. Partindo de um ponto de vista retrospectivo, pode-se, entre
outros, ressaltar a repetição de tomadas ou os close-ups de detalhes
como em Man Ray, a mesma partitura de música de Satie em Limite como
em Les Mystères du Château des Dés (1928), de Man Ray, a estruturação
rítmica como, por exemplo, em O Homem com a Câmera (1929), de
Vertov,
ou Sinfonia de Berlim (1927), apesar de uma qualidade e velocidade
diferentes, bem como o uso restrito de intertítulos como em A Última
Gargalhada (1924), de Murnau.
As cenas do barco em Limite podem evocar
paralelos com Aurora (1927), o primeiro filme americano de Murnau, e
também as cenas de gritos revelam algumas similaridades. Os campos e
plantas em movimento podem evocar reminiscências a Terra (1930), de
Alexander Dovzhenko, e, obviamente, pode-se mencionar uma enorme
variação de movimentos e ângulos da câmera como uma exploração do
próprio medium filme.
Limite pode, portanto, ser visto como um esforço
para explorar as possibilidades visuais, as técnicas experimentais e
as variações rítmicas do medium fílmico no contexto de uma afirmação
às vezes melancólica, outras um tanto agressiva sobre a limitação e a
futilidade da existência humana.
E, finalmente, temos que mencionar as limitações técnicas de um filme
realizado sem a estrutura de um backup profissional, um empreendimento
solitário, financiado pelo próprio Mário.
Foi sobretudo a competência
brilhante do cameraman Edgar Brazil que possibilitou o diretor de
realizar aquilo que pretendia.
Edgar Brazil, a propósito, nasceu em
Hamburgo/Alemanha como Edgar Hausschild e, no Brasil, teve importância
similar à que teve, por exemplo, Karl Freund na Alemanha.
Edgar também trabalhou com
Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga, dois outros diretores importantes
daquele tempo, e construiu o equipamento especial que Peixoto havia
pedido para os seus movimentos elaborados de câmera.
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| Filmagem de Limite |
2.
Quando Mário voltou da Europa em outubro de 1929, ele ofereceu seu
scenario aos diretores Gonzaga e Mauro. Ambos recusaram.
Aconselharam-no que ele mesmo fizesse o filme e contratasse Edgar Brazil, que teria a experiência necessária para garantir a realização
do projeto.
A filmagem começou na metade de 1930, usando, pela
primeira vez no Brasil, material pancromático com alta sensibilidade
para escalas de cinza. Stills de Limite foram logo distribuídas e
freqüentemente apresentadas como fotos de um novo filme de Pudovkin
para aumentar a expectativa do público.
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| Still de Limite: 1930 |
Still de Limite: 1930 |
A primeira exibição aconteceu em 17 de maio de 1931
no Cinema Capitólio no Rio de Janeiro, uma sessão organizada pelo
Chaplin Club, que anunciou Limite como o primeiro filme brasileiro de
"cinema puro".
Obteve reações favoráveis dos críticos, que o viam como
uma primeira produção brasileira de vanguarda, mas nunca entrou em
circuitos comerciais. Ao longo dos anos, foi exibido apenas
esporadicamente, como em 1942, quando uma sessão especial foi
organizada para Orson Wells, que estava na América do Sul para a
filmagem de seu filme inacabado It’s all true, e para Maria Falconetti,
atriz principal de The Passion of Joan of Arc (1928), de Theodor Dreyer.
Devido a vários fatores, Limite, conhecido também como a “obra prima desconhecida” – uma expressão de Georges Sadoul que, em 1960, fez uma
viagem mal sucedida para o Rio de Janeiro para assistir ao filme – e
também o seu diretor se tornaram lendários. Logo após a primeira
exibição no Rio, Limite foi mostrado em muitas ocasiões na Europa, em
Paris, bem como no cinema Marble Arch em Londres, onde supostamente
atraiu o interesse de Sergei Eisenstein, seguido por um artigo escrito
por ele, intitulado Um Filme da América do Sul. Diz-se que este foi
publicado em 1931 no The Tatler Magazin. Esse artigo é freqüentemente
citado como prova para o reconhecimento e reputação internacional de
Limite, como no programa da Berliner Filmfestspiele em 1981 ou
recentemente em 2004, quando Onde a terra acaba, o documentário sobre
Mário Peixoto, foi apresentado em diversos cinemas europeus.
Nos anos
40 e 50, o próprio Mário mencionou com freqüência o texto de Eisenstein, mas nunca apresentou o artigo propriamente dito. Quando
tentava financiamento para um de seus projetos – um filme chamado A
alma segundo Salustre, em 1964 – Plinio Süssekind, um amigo, lhe disse
que o artigo seria muito útil para levantar fundos. Duas semanas
depois, Mário apresentou um texto escrito à mão em português, que
então foi publicado em 1965 por Carlos Diegues na sua coluna de cinema
da revista brasileira Arquitetura, vol. 38. O próprio Mário disse
primeiro que ele tinha traduzido o texto de uma versão francesa do
artigo original em inglês e mais tarde afirmou que Edgar Brazil o
havia traduzido do alemão para o português. Porém, de acordo com Saulo
Pereira de Mello, finalmente admitiu que ele mesmo o havia escrito. O
artigo foi então republicado por Mello (2000) como um texto do próprio
Mário Peixoto.
Um segundo item a ser mencionado é a história de
Limite como obra-prima desconhecida. Em 1959, o filme de nitrato começou a se
deteriorar, e Plinio Süssekind e Saulo Pereira de Mello iniciaram um
longo trabalho de restauração. Sem experiência técnica prévia, usaram
procedimentos adquiridos em livros especializados.
Limite apenas
retornou aos festivais e exibições em 1978. Apesar do fato de que
ninguém pôde ver o filme entre 1959 e 1978 – como no caso de Georges
Sadoule e sua mal sucedida viagem ao Rio de Janeiro em 1960 – Limite
ainda serviu como referência para discussões e declarações
controversas, enquanto outros até duvidavam de que o filme realmente
existia.
Glauber Rocha, figura principal do cinema novo, classificou,
em 1963, o diretor como “longe da realidade e da historia” (59) e seu
filme (sem tê-lo visto) como “incapaz de compreender as contradições
da sociedade burguesa” (66), uma “contradição historicamente
ultrapassada” (67) e confirmou o seu julgamento de Limite como uma
produção da burguesia intelectual decadente de novo em 1978, após
finalmente tê-lo visto.
3.
Para uma aproximação teórica ao Limite, conceitos como fluidez e
continuidade podem servir como termos referenciais, não tanto em
relação ao seu conceito estrutural, baseado sobretudo na variação e
não na continuação (ou talvez na variação continua) como princípio
fílmico principal, mas em relação à ambição filosófica implícita: a
oscilação entre a corrente de memória fluida e objetos e episódios
sólidos e concretos que emergem como pontos fixos na continuidade do
tempo. Esse propósito é um tanto claramente formulado no artigo de
Peixoto Um Filme da América do Sul – formalmente atribuído a Eisenstein – o qual eu entendo como uma de suas poucas declarações
teóricas. Aqui, Peixoto enfatiza primeiro o papel do “cérebro-câmera”
e da estrutura “instintivamente ritmo” de Limite e então define o
filme como em algum lugar entre uma obra de arte “singular”, notável e
um objeto “anônimo em inexpressivas multidões” (apud Mello 2000: 85).
Para Peixoto, a experiência oferecida por Limite não pode ser
adequadamente capturada pela linguagem, mas foi feita para ser
sentida. Portanto, o expectador deve se subjugar às imagens como
“angustiantes acordes de uma sintética e pura linguagem de cinema”
(88). De acordo com o diretor, o seu filme é de “rara precisão e
engenho”, onde longas tomadas são cercadas e interligadas por tomadas
curtas como num “sistema planetário” (88). Peixoto caracteriza
Limite como um “grito” almejando ressonância ao invés de compreensão. “O
filme não ousa (ou não quer) analisar. Ele mostra [...]. Ele se afirma
como um diapasão” (88), capturando o fluxo entre passado e presente,
detalhes de objetos e contingências como se sempre tivesse “existido
nos seres e nas coisas, ou destes se desprendendo tacitamente”.
Visto
que Limite é mais um estado do que uma análise, personagens e linhas
narrativas emergem, seguidas de uma câmera sondadora, explorando
ângulos, detalhes, possibilidades de acesso e fixação, apenas para
então se desfazer novamente no desconhecido, uma corrente visual com
certas densidades e ilustrações dentro do fluxo contínuo de tempo. De
acordo com Peixoto, todas essas transposições poéticas encontram
desespero e impossibilidades, uma “dor luminosa” (92), desdobrando-se
ritmicamente. Essa oscilação entre o fluido e o sólido, o notável e o
não-identificável, o objeto concreto e a abstração é um princípio
básico não somente para o seu filme, mas também para a sua obra
literária.
Se seguirmos esses contornos, podemos ver Limite como um filme de
concepção clara e elaborada, talvez difícil de identificar à primeira
vista, mas emergindo mais completo e ricamente a cada exibição a que
se assiste. Talvez esteja aqui a razão para o desgosto de Peixoto com os filmes surrealistas e a rejeição do acaso como principio artístico,
como encontramos em Man Ray ou no Dadaísmo.
Limite inicia com a imagem
de uma mulher abraçada por um homem algemado, uma imagem prototípica a ser variada e diversificada ao longo do filme.
A proto-imagem no começo, baseada na fotografia que ele viu em Paris em 1929,
introduzindo o leitmotiv do aprisionamento, abre caminho para uma
longa e quase hipnótica cena de barco, que serve para nos transportar
ao continuum do tempo, um estado amorfo fluido, onde o cérebro-câmera
se move para o passado, traçando certas linhas de memória, episódios e
detalhes associados, objetos, movimentos e imagens, flashes visuais de
limitação que se refletem em outras imagens e, assim, saem de um
estado fixo, limitado e que desaparecem posteriormente sem
motivo aparente. O naufrágio na tempestade nos leva de volta à
proto-imagem original, o tema inicial, agora estendido e enriquecido
pelas variações visuais e rítmicas que nós experimentamos.
Gostaria de concluir esta resumida introdução com um comentário a
respeito da trilha sonora de Limite: o plano original de acompanhar as
imagens com sons naturais como vento, o sussurro de folhas e a quebra
das ondas foi abandonado devido a dificuldades técnicas e substituído
por uma trilha em discos, escolhida cuidadosamente por Brutus
Pedreira, o ator que faz o papel de um pianista no filme e era de fato
músico. Os temas selecionados – entre outros, de Satie, Debussy,
Borodin, Stravinsky, Prokofiev e César Franck – foram então, nos
screenings de Limite, sintonizados através de dois toca-discos,
freqüentemente operados pelos próprios Mário e Brutus.
Devido a este
procedimento, o filme foi mostrado várias vezes sem o acompanhamento
musical e apenas com a edição em vídeo, imagens e som foram integrados
de forma definitiva. Frente à conhecida obsessão do diretor com todos
os detalhes relativos ao filme – arrumando até as plantas para curvar
em um ângulo específico – pode-se compreender a relação entre imagem e
som como uma concepção elaborada, freqüentemente contrapondo os dois
numa discrepância rítmica intencional, onde som e imagem divergem para
abrir uma outra dimensão temporal e de ressonância entre a cena atual
e um espaço mais amplo e contingente além das limitações impostas pela
visão “enquadrada” e da seqüencialidade do próprio medium fílmico.
Referências bibliográficas:
Farias, Otavio. Eu creio na imagem. In: O fan, vol. 6. Rio de Janeiro,
1929.
Mello, Saulo Pereira de. Mário Peixoto - Escritos sobre cinema. Rio de
Janeiro: aeroplano, 2000.
Peixoto, Mário. Limite. "scenario" original. Rio de Janeiro: Sette
Letras, 1996.
Rocha, Glauber. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. São Paulo: Cosac
& Naify, 2000. |