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O filme de Mário Peixoto deixou sua marca não apenas na
história cinematográfica e cultural do Brasil. Houve a
polêmica já um pouco distante de Glauber Rocha em torno do
cinema novo, na década de 1960, quando ele contrapôs Ganga
Bruta (1933) de Humberto Mauro ao filme de Peixoto (ver posteriormente
neste texto). Mais recentemente, encontramos uma seqüência com o
próprio Peixoto em O Cinema Falado (1986), único filme
de Caetano Veloso. Adriana Calcanhoto projetou cenas do filme durante a
música O Mocho e a Gatinha, em seu DVD Adriana Partimpim
(2004). David Bowie escolheu Limite como o único filme
brasileiro entre seus dez favoritos da América Latina para a mostra HIGH
LINE FESTIVAL, em 2007. Neste mesmo ano, a versão restaurada de Limite
foi exibida no festival de Cannes e fez parte dos filmes selecionados para
a World Cinema Foundation, fundada por Martin Scorsese e que tem
como objetivo a preservação, restauração e
exibição de produções históricas,
sobretudo da África, América Latina, Ásia e Europa central.
Aqui um
dossiê sobre Limite elaborado pela ZZ Productions,
Paris, http://www.zzproductions.fr para
este evento. Para um artigo em inglês sobre Limite dentro do
contexto do cinema brasileiro, ver este
link.
Recentemente, o filme foi restaurado pela Cinemateca Brasileira e a
nova versão foi apresentada em novembro de 2011 no Auditório
Ibirapuera em São Paulo com uma nova trilha sonora,
composta pelo norueguês Bugge Wesseltoft. O músico
veio ao Brasil apresentar ao vivo o acompanhamento sonoro, acompanhado
pelo também norueguês Ola Kvernberg (violino) e pelos
brasileiros Rodolfo Stroeter (baixo), Naná Vasconcelos
(percussão) e Marlui Miranda (flauta e voz). Um trecho pode ser
visto no youtube.
Para empréstimos e questões jurídicas, por favor
contatar a Cinemateca Brasileira.
Uma discussão sobre Limite e o documentário
inédito O Mar de Mário de Reginado Gontijo e Luiz
Fernando Suffiati pode ser vista aqui. Um
programa da TV brasileira dedicado ao filme Limite encontra-se neste link. A seguir, um breve
olhar histórico sobre o filme único de Mário Peixoto.
1.
Quando se fala de filmes mais experimentais no Brasil ou de tais filmes
realizados por diretores brasileiros, pode-se basicamente citar três
produções: primeiro, Rien Que Les Heures (1926),
filmado em Paris por Alberto Cavalcanti (1897-1982); segundo, São
Paulo – Sinfonia da Metrópole (1929),
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Cartaz 1929
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dirigido
por Rodolfo Lustig e Alberto Kemeny, um filme obviamente inspirado pela Sinfonia
de Berlim de Ruttmann (1927). E, finalmente, podemos citar Limite,
filmado em 1930 e exibido pela primeira vez em 1931, dirigido e escrito por
Mário Peixoto, que se tornou, ao longo dos anos, um filme cult
lendário. Foi votado várias vezes como o melhor filme
brasileiro já realizado e pode ser considerado a primeira e
única referência para filmes brasileiros experimentais (apesar
da problemática do termo) do cinema mudo. Do meu ponto de vista, o
termo Limite já traz em si uma certa qualidade
programática. Em primeiro lugar, gostaria de apontar a qualidade
icônica do "I" como uma concepção estrutural
que caracteriza as linhas visuais permanentes durante o filme, como nos
fios, arames, estradas, árvores secas, galhos e plantas, estacas e
postes, telhados, paredes, grades ou cercas.
E não é por acaso que depois da seqüência inicial
do filme – explorando um estado mais fluido e amorfo – a
câmera focaliza a prancha do barco como linha inicial que nos
levará à primeira linha de memória.
Essas linhas visuais, às vezes desdobrando-se em
direção a espaços abertos, às vezes formando
espaços limitados como triângulos ou cruzes, portanto, servem
como uma ligação, um fio que conecta diferentes flashes do
passado, bem como indica suas limitações, proporcionando ao
filme uma estrutura muito geométrica,
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Limite
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contrabalançada
por detalhes em movimento e obviamente, o movimento da própria
câmera.
Em segundo lugar, Limite pode ser visto no limite histórico
entre o cinema mudo e falado, um filme com uma certa ambição
de resumir muitas das possibilidades estéticas e técnicas
desenvolvidas nos anos 10 e 20. Partindo de um ponto de vista retrospectivo,
pode-se, entre outros, ressaltar a repetição de tomadas ou os
close-ups de detalhes como em Man Ray, a mesma partitura de
música de Satie em Limite como em Les Mystères du Château
des Dés (1928), de Man Ray, a estruturação
rítmica como, por exemplo, em O Homem com a Câmera
(1929), de Vertov, ou Sinfonia de Berlim (1927), apesar de
uma qualidade e velocidade diferentes, bem como o uso restrito de
intertítulos como em A Última Gargalhada (1924), de
Murnau.
As cenas do barco em Limite podem evocar paralelos com Aurora
(1927), o primeiro filme americano de Murnau, e também as cenas de
gritos revelam algumas similaridades. Os campos e plantas em movimento
podem evocar reminiscências a Terra (1930), de Alexander
Dovzhenko, e, obviamente, pode-se mencionar uma enorme
variação de movimentos e ângulos da câmera como
uma exploração do próprio medium filme.
Limite pode, portanto, ser visto como um esforço para
explorar as possibilidades visuais, as técnicas experimentais e as
variações rítmicas do medium fílmico no
contexto de uma afirmação às vezes melancólica,
outras um tanto agressiva sobre a limitação e a futilidade da
existência humana.
E, finalmente, temos que mencionar as limitações
técnicas de um filme realizado sem a estrutura de um backup
profissional, um empreendimento solitário, financiado pelo
próprio Mário.
Foi sobretudo a competência brilhante do cameraman Edgar
Brazil que possibilitou o diretor de realizar aquilo que pretendia. Edgar
Brazil, a propósito, nasceu em Hamburgo/Alemanha como Edgar
Hausschild e, no Brasil, teve importância similar à que teve,
por exemplo, Karl Freund na Alemanha.
Edgar também trabalhou com Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga, dois
outros diretores importantes daquele tempo, e construiu o equipamento
especial que Peixoto havia pedido para os seus movimentos elaborados de
câmera.
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Filmagem de
Limite
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2.
Quando Mário voltou da Europa em outubro de 1929, ele ofereceu seu
scenario aos diretores Gonzaga e Mauro. Ambos recusaram. Aconselharam-no que
ele mesmo fizesse o filme e contratasse Edgar Brazil, que teria a
experiência necessária para garantir a
realização do projeto.
A filmagem começou na metade de 1930, usando, pela primeira vez no
Brasil, material pancromático com alta sensibilidade para escalas de
cinza. Stills de Limite foram logo distribuídas e
freqüentemente apresentadas como fotos de um novo filme de Pudovkin
para aumentar a expectativa do público.
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Still de
Limite: 1930
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Still de
Limite: 1930
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A
primeira exibição aconteceu em 17 de maio de 1931 no Cinema Capitólio
no Rio de Janeiro, uma sessão organizada pelo Chaplin Club,
que anunciou Limite como o primeiro filme brasileiro de "cinema
puro".
Obteve reações favoráveis dos críticos, que o
viam como uma primeira produção brasileira de vanguarda, mas
nunca entrou em circuitos comerciais. Ao longo dos anos, foi exibido apenas
esporadicamente, como em 1942, quando uma sessão especial foi
organizada para Orson Wells, que estava na América do Sul para a
filmagem de seu filme inacabado It’s all true, e para Maria
Falconetti, atriz principal de The Passion of Joan of Arc (1928), de
Theodor Dreyer.
Devido a vários fatores, Limite, conhecido também como
a “obra prima desconhecida” – uma expressão de
Georges Sadoul que, em 1960, fez uma viagem mal sucedida para o Rio de
Janeiro para assistir ao filme – e também o seu diretor se
tornaram lendários. Logo após a primeira
exibição no Rio, Limite foi mostrado em muitas
ocasiões na Europa, em Paris, bem como no cinema Marble Arch em
Londres, onde supostamente atraiu o interesse de Sergei Eisenstein, seguido
por um artigo escrito por ele, intitulado Um Filme da
América do Sul. Diz-se que este foi publicado em 1931 no The
Tatler Magazin. Esse artigo é freqüentemente citado como
prova para o reconhecimento e reputação internacional de Limite,
como no programa da Berliner Filmfestspiele em 1981 ou recentemente
em 2004, quando Onde
a terra acaba, o documentário sobre Mário
Peixoto, foi apresentado em diversos cinemas europeus.
Nos anos 40 e 50, o próprio Mário mencionou com
freqüência o texto de Eisenstein, mas nunca apresentou o artigo
propriamente dito. Quando tentava financiamento para um de seus projetos
– um filme chamado A alma segundo Salustre, em 1964 –
Plinio Süssekind, um amigo, lhe disse que o artigo seria muito
útil para levantar fundos. Duas semanas depois, Mário
apresentou um texto escrito à mão em português, que
então foi publicado em 1965 por Carlos Diegues na sua coluna de
cinema da revista brasileira Arquitetura, vol. 38. O próprio
Mário disse primeiro que ele tinha traduzido o texto de uma
versão francesa do artigo original em inglês e mais tarde
afirmou que Edgar Brazil o havia traduzido do alemão para o
português. Porém, de acordo com Saulo Pereira de Mello,
finalmente admitiu que ele mesmo o havia escrito. O artigo foi então
republicado por Mello (2000) como um texto do próprio Mário
Peixoto.
Um segundo item a ser mencionado é a história de Limite
como obra-prima desconhecida. Em 1959, o filme de nitrato começou a
se deteriorar, e Plinio Süssekind e Saulo Pereira de Mello iniciaram
um longo trabalho de restauração. Sem experiência
técnica prévia, usaram procedimentos adquiridos em livros
especializados.
Limite apenas retornou aos festivais e exibições em
1978. Apesar do fato de que ninguém pôde ver o filme entre
1959 e 1978 – como no caso de Georges Sadoule e sua mal sucedida
viagem ao Rio de Janeiro em 1960 – Limite ainda serviu como
referência para discussões e declarações
controversas, enquanto outros até duvidavam de que o filme realmente
existia.
Glauber Rocha, figura principal do cinema novo, classificou, em 1963, o
diretor como “longe da realidade e da historia” (59) e seu
filme (sem tê-lo visto) como “incapaz de compreender as
contradições da sociedade burguesa” (66), uma
“contradição historicamente ultrapassada” (67) e
confirmou o seu julgamento de Limite como uma produção
da burguesia intelectual decadente de novo em 1978, após finalmente
tê-lo visto.
3.
Para uma aproximação teórica ao Limite,
conceitos como fluidez e continuidade podem servir como
termos referenciais, não tanto em relação ao seu
conceito estrutural, baseado sobretudo na variação e
não na continuação (ou talvez na
variação continua) como princípio fílmico
principal, mas em relação à ambição
filosófica implícita: a oscilação entre a
corrente de memória fluida e objetos e episódios
sólidos e concretos que emergem como pontos fixos na continuidade do
tempo. Esse propósito é um tanto claramente formulado no
artigo de Peixoto Um Filme da América do Sul –
formalmente atribuído a Eisenstein – o qual eu entendo como
uma de suas poucas declarações teóricas. Aqui, Peixoto
enfatiza primeiro o papel do “cérebro-câmera” e da
estrutura “instintivamente ritmo” de Limite e
então define o filme como em algum lugar entre uma obra de arte
“singular”, notável e um objeto “anônimo em
inexpressivas multidões” (apud Mello 2000: 85). Para Peixoto,
a experiência oferecida por Limite não pode ser
adequadamente capturada pela linguagem, mas foi feita para ser sentida.
Portanto, o expectador deve se subjugar às imagens como “angustiantes
acordes de uma sintética e pura linguagem de cinema”
(88). De acordo com o diretor, o seu filme é de “rara
precisão e engenho”, onde longas tomadas são cercadas e
interligadas por tomadas curtas como num “sistema
planetário” (88). Peixoto caracteriza Limite como um
“grito” almejando ressonância ao invés de
compreensão. “O filme não ousa (ou não quer)
analisar. Ele mostra [...]. Ele se afirma como um diapasão”
(88), capturando o fluxo entre passado e presente, detalhes de objetos e
contingências como se sempre tivesse “existido nos seres e nas
coisas, ou destes se desprendendo tacitamente”.
Visto que Limite é mais um estado do que uma análise,
personagens e linhas narrativas emergem, seguidas de uma câmera
sondadora, explorando ângulos, detalhes, possibilidades de acesso e
fixação, apenas para então se desfazer novamente no
desconhecido, uma corrente visual com certas densidades e
ilustrações dentro do fluxo contínuo de tempo. De
acordo com Peixoto, todas essas transposições poéticas
encontram desespero e impossibilidades, uma “dor luminosa”
(92), desdobrando-se ritmicamente. Essa oscilação entre o
fluido e o sólido, o notável e o
não-identificável, o objeto concreto e a
abstração é um princípio básico
não somente para o seu filme, mas também para a sua obra literária.
Se seguirmos esses contornos, podemos ver Limite como um filme de
concepção clara e elaborada, talvez difícil de
identificar à primeira vista, mas emergindo mais completo e
ricamente a cada exibição a que se assiste. Talvez esteja
aqui a razão para o desgosto de Peixoto com os filmes surrealistas e
a rejeição do acaso como principio artístico, como
encontramos em Man Ray ou no Dadaísmo.
Limite inicia com a imagem de uma mulher abraçada por um
homem algemado, uma imagem prototípica a ser variada e diversificada
ao longo do filme.
A proto-imagem no começo, baseada na fotografia que ele viu em Paris
em 1929, introduzindo o leitmotiv do aprisionamento, abre caminho
para uma longa e quase hipnótica cena de barco, que serve para nos
transportar ao continuum do tempo, um estado amorfo fluido, onde o
cérebro-câmera se move para o passado, traçando certas
linhas de memória, episódios e detalhes associados, objetos,
movimentos e imagens, flashes visuais de limitação que
se refletem em outras imagens e, assim, saem de um estado fixo, limitado e
que desaparecem posteriormente sem motivo aparente. O naufrágio na
tempestade nos leva de volta à proto-imagem original, o tema
inicial, agora estendido e enriquecido pelas variações
visuais e rítmicas que nós experimentamos.
Gostaria de concluir esta resumida introdução com um
comentário a respeito da trilha sonora de Limite: o plano
original de acompanhar as imagens com sons naturais como vento, o sussurro
de folhas e a quebra das ondas foi abandonado devido a dificuldades
técnicas e substituído por uma trilha em discos, escolhida
cuidadosamente por Brutus Pedreira, o ator que faz o papel de um pianista
no filme e era de fato músico. Os temas selecionados – entre
outros, de Satie, Debussy, Borodin, Stravinsky, Prokofiev e César
Franck – foram então, nos screenings de Limite,
sintonizados através de dois toca-discos, freqüentemente
operados pelos próprios Mário e Brutus.
Devido a este procedimento, o filme foi mostrado várias vezes sem o
acompanhamento musical e apenas com a edição em vídeo,
imagens e som foram integrados de forma definitiva. Frente à
conhecida obsessão do diretor com todos os detalhes relativos ao
filme – arrumando até as plantas para curvar em um ângulo
específico – pode-se compreender a relação entre
imagem e som como uma concepção elaborada,
freqüentemente contrapondo os dois numa discrepância
rítmica intencional, onde som e imagem divergem para abrir uma outra
dimensão temporal e de ressonância entre a cena atual e um
espaço mais amplo e contingente além das
limitações impostas pela visão
“enquadrada” e da seqüencialidade do próprio medium
fílmico.
Referências bibliográficas:
Farias, Otavio. Eu creio na imagem. In: O fan, vol. 6. Rio de
Janeiro, 1929.
Mello, Saulo Pereira de. Mário Peixoto - Escritos sobre cinema.
Rio de Janeiro: aeroplano, 2000.
Peixoto, Mário. Limite. "scenario" original. Rio de
Janeiro: Sette Letras, 1996.
Rocha, Glauber. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro.
São Paulo: Cosac & Naify, 2000.
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